Tuesday, June 10, 2003

Os cybermanos e a periferia globalizada

Apropriar-se da cultura periférica, simplificá-la e revendê-la no menor espaço de tempo para o maior
número de pessoas possível. Durante quase cem anos, essa foi uma das estratégias de sobrevivência da indústria do entretenimento. Ainda que não seja visível a olho nu, como nas embalagens de extrato de tomate, existe um prazo de validade que determina a duração de seus produtos. A indústria do
entretenimento não é dinâmica. É estática, monocultural e de curta duração. Daí recorrer à periferia
quando lhe faltam idéias, reciclando estéticas e movimentos espontâneos, transformando-os em
divertimento limpo e seguro para as massas.

O spiritual do final do século XIX resultou no blues. E o blues, ao misturar-se com o country, deu ao mundo o rock'n'roll, que, bem mais tarde, permitiu aos Beatles fragmentarem-se em discos, pôsteres, lancheiras, bottons e desenhos animados, o primeiro produto de massas da música jovem. A literatura beat forneceu a base teórica/comportamental da contracultura norte-americana dos anos 60,
posteriormente transformada no movimento hippie e diluída para ser aproveitada pela indústria na
moda, no cinema e na televisão. A morte de Jack Kerouac, a prisão de Timothy Leary e Abbie Hoffman na clandestinidade são o contraponto ao desbunde capitalista de Woodstock e a "psicodelia" como
tendência de mercado, um filão lucrativo explorado em forma de pastiche em seriados como The Banana Splits e filmes como A Fantástica Fábrica de Chocolate e, mais tarde, de forma ingênua e equivocada pela Jovem Guarda brasileira.

Não que, vez ou outra, manifestações autênticas de rebeldia e inconformismo artístico escapem ao controle dos mass media. O "fuck" dos Sex Pistols na televisão inglesa é um bom exemplo disso. No entanto, a indústria do entretenimento é, sobretudo, baseada no consenso. Ela pode até usar, em maior ou menor grau, conceitos gerados por movimentos periféricos. Ainda assim, tenderá sempre a
reduzi-los ao mínimo denominador comum, aproveitando a novidade apenas como forma de edulcorar formatos anteriores já testados à exaustão.

Em conceito, Christina Aguilera é uma atriz de música negra: usa bases de funk e hip-hop, recorre a inflexões vocais características do R&B e renega a assepsia visual dos ídolos adolescentes da classe média WASP norte-americana. Como as cantoras de rap e de R&B, Christina rebola, usa roupas apertadas e simula ter uma sensualidade que a América branca e conservadora condenaria em outras circunstâncias. Mas Christina é, acima de tudo, um produto da indústria do entretenimento, vendida como passatempo seguro, que desperta em seus fãs tanto fantasias de transgressão social e sexual quanto
estimula o conformismo ao estabelecer limites para a sua própria "rebeldia". Da cultura negra, ela utiliza apenas uma estética estilizada e branda, que lhe permite um certo verniz transgressor mas não compromete sua aceitação por parte do grande público.

Partido deste princípio, é possível traçar um paralelo entre o método de apropriação utilizado pela indústria do entretenimento e o desenvolvimento das culturas alternativas no Brasil. Ao contrário dos países onde elas se desenvolvem, certas tendências chegam ao nosso país como um produto destinado ao consumo de uma pequena parcela da sociedade, justamente aquela que possui melhores condições financeiras. O conhecimento e o acesso a determinado produto passam a ser não uma bandeira
social e cultural e sim um símbolo de status para ser exibido entre um número restrito de iniciados.
Tomemos o exemplo da música eletrônica no Brasil e a cultura dos VIPs, das microcelebridades, do exclusivismo e dos códigos estéticos. Erroneamente, parte dos consumidores da música eletrônica no Brasil associa o estilo à manutenção de um conceito equivocado de modernidade, fechando-se em grupos e subculturas incipientes. É o que possibilita o surgimento dos clubes com política de porta e a tentativas, às vezes bem-sucedidas, de se estabelecer códigos sociais e estéticos.

Porém, o esnobismo exagerado de parte da cultura eletrônica brasileira acaba por eclipsar a verdadeira
modernidade. Em sua essência, a palavra "moderno" está ligada ao modo de fazer as coisas. Ser moderno não é ter acesso a fontes de informação antes de todo mundo ou ter a capacidade de seguir tendências. Ser moderno é criar um fazer diferente, é confrontar aquilo que está estabelecido através de caminhos alternativos. Assim, a modernidade não está nas roupas de griffe "feitas para se usar na rave", nos modismos importados e muito menos no name dropping (mania elitista de citar rótulos e nomes na
tentativa de impressionar alguém). A modernidade está, por exemplo, na periferia, que numa tentativa de driblar suas próprias deficiências culturais e financeiras acaba se tornando a fonte das mais interessantes e originais manifestações culturais. Do reggae criado em precários estúdios de dois canais nas favelas de Kingston ao rap saído das festinhas barra-pesada do Bronx, da zoeira musical dos punks londrinos as belas melodias que Cartola criou nos morros cariocas.

Isso só reafirma ainda mais a distorção de valores que regem alguns setores da cena eletrônica brasileira. Aqui é negado às classes mais baixas o acesso a uma cultura que, em seu país de origem, saiu exatamente das zonas mais pobres. As raves começaram como festas ilegais nos subúrbios de Londres, feitas por gente que não tolerava a política dos clubes, e o drum’n’bass nasceu nas quebradas
de Brixton com influências diretas do reggae e do rap. E mesmo o DJ-artista, incluindo aí a negação ao star system da indústria cultural, tem raízes fincadas nos bairros negros jamaicanos e norte-americanos, especialmente no caso dos primeiros bailes de rap do final dos anos 70.

No Brasil, ao contrário, essa distorção da cultura eletrônica se estabeleceu em dois pontos distintos: no
gueto-chic e na simplificação da e-music, exatamente o modelo de apropriação padrão da indústria do
entretenimento. Nos dois casos, o que vemos são atitudes equivocadas. A primeira por transferir para eletrônica todos os vícios das elites brasileiras (através de preços altos, política de porta, preconceito e dress code). A segunda por diluir um estilo musical com propósitos exclusivamente comerciais (qualquer eletrônica passa a ser "techno", qualquer roupa extravagante passa a ser "moderna" ou "clubber", toda a festa se transforma em "rave").

Por outro lado, a descoberta de que a eletrônica, antes de ser um estilo musical, é uma ferramenta que
possibilita um fazer artístico diferente, permite a periferia recombinar suas referencias sonoras criando
assim música barata e, sobretudo, moderna. Dos subúrbios cariocas sai o funk, o amálgama bastardo surgido da semente plantada por Afrikaa Bambaataa e outros mestres da black music e (dizem) de um sonho revelador no qual o DJ Marlboro aprendeu a programar uma drum machine (“O que acontecerá se a cena electro de NY descobrir o Marlboro?”, alguém já perguntou por aí). Na periferia de São Paulo, legiões de cybermanos adaptam o drum`n`bass a realidade brasileira num processo que gerou artistas como Marky e Patife. E em Belém do Pará, o reggae, o raggamufim` e o drum`n`bass misturam-se a ecos de Kraftwerk em nome do tecnobrega, a meta-música das aparelhagens de som e das turmas de dançarinos de rua.

Obviamente, o maior desafio está em aceitar que a modernidade se faz presente também nos subúrbios, que bairros pobres podem produzir uma cultura de rua original e vibrante. Os rígidos códigos de postura e a vontade de se integrar a uma suposta vanguarda impedem que gêneros como o tecnobrega, o funk carioca e o drum`n`bass dos cybermanos recebam o mesmo grau de importância que a musica eletrônica feita na Europa e nos Estados Unidos. E enquanto periferia aprende que computadores podem fazer arte, o gueto chic deslumbra-se com a sua própria alienação, fingindo que ao seu redor nada acontece. Pelo menos até o próximo modismo.

Saturday, July 20, 2002

A 120...150...200KM por hora
Por Vladimir Cunha
yoyodine@hotmail.com


Quando o Chevy Malibu 62 ultrapassa a grade de proteção ele sabe que é o fim. Ele sabe, pois fez de propósito. Como um organismo em estado terminal, todos os sistemas entram em colapso. A estrutura se desfaz. Freios, cabos, o pouco de combustível que ainda lhe resta. A iminência da morte lhe dá tranqüilidade. Ele não vai sofrer. Não, porque isso não faz sentido. É desligar os controles e não voltar jamais.


A trajetória do carro durante a queda é a última imagem do Mito. Não é fácil. Ser maior que a própria existência custa caro. O preço foi sentir-se eternamente miserável, traído, esperando a mão da Morte, a senhora traiçoeira que lhe espia e, escondida, goza de sua fragilidade, que faz pouco de sua insipiência e pequenez. A Morte como dona dos acontecimentos, conspirando através do fluxo do tempo.


De uns tempos para cá, ele vem desenvolvendo um jogo psicológico de dor e abandono, onde é fragmentado em diversos pontos de energia, nos quais o intervalo sobrepõe-se ao fluxo, forçando sua consciência rumo à autodestruição. Imaginou-se aspergido, untado, invadido por todas as correntes de tempo e espaço, penetrado por dimensões aleatórias. Sonhou com a perda definitiva da identidade e fantasiou sua dispersão, na qual era a virgem purificada e renascida, pronta para parir um novo Messias, o apóstolo de cuca fundida, dentes brancos e sorriso beato.


Ele está mais interessado nos espaços em branco, nas pausas, na Forma Final. Aliás, é a Forma Final que lhe assombra com a idéia do Universo Perfeito. A perfeição é a Ausência, é a dispersão levada às últimas conseqüências. O Nada no papel de agente apaziguador, de profeta da paz interior.


Vê um estranho grupo de pássaros e se pergunta que espécie é aquela. Não parece com nada conhecido e nem traz na plumagem algum tipo de cor que seja facilmente identificável. Ao olhá-los percebe apenas um conceito abstrato, intraduzível. Mais provavelmente dirá que os bichos são de "cor de desmaio", "agudo imaginativo", "quark leitoso", "dobra espacial" ou qualquer outra coisa que vier à sua cabeça. Com o passar do tempo, até mesmo a forma das aves desaparece, tornando-se mais e mais maleável. E então ele mistura-se aos pássaros como se fosse plástico derretido em asfalto quente. Já não são simples animais, são fractais, quantas, ligações covalentes, campos gravitacionais, planos de oito dimensões...


O carro finalmente choca-se contra o asfalto. Ele ainda ouve a explosão e sente as chamas cobrindo seu corpo. A 120...150...200KM por hora. Só restarão cinzas. E as canções que ele fez para você.

Terror, pop art e contracultura
A história dos quadrinhos, de Bill Gaines a Roy Lichtenstein
Por Vladimir Cunha
yoyodine@hotmail.com


Até 1947, o jovem William M.Gaines não passava de um bom-vivant dedicado única e exclusivamente às coisas boas do mundo. Mas só até 1947, pois naquele mesmo ano sua vida mudaria drasticamente após a morte de sua mãe num acidente de barco. Profundamente abatido com a tragédia, seu pai, Max Gaines, resolveu retirar-se dos negócios e passou para o filho a missão de tocar adiante a empresa da família, a editora de quadrinhos religiosos Educational Comics. O único problema é que quadrinhos religiosos não eram exatamente um gênero de sucesso entre a molecada, que preferia as aventuras do Capitão América às adaptações carolas de passagens do Novo Testamento, daí ser compreensível que a Educational Comics estivesse em sérias dificuldades financeiras. Entretanto, o destino de Gaines tomaria um rumo inesperado quando ele cruzou o caminho de Al Feldstein, um talentoso artista freelancer em começo de carreira e que, assim como o ex-playboy, adorava aventuras de terror e mistério. Descobertas as afinidades, a dupla juntou as forças e criou duas histórias: A Cripta do Terror e A Câmara do Horror. E já que pior do que estava não podia ficar, Gaines aproveitou a editora que herdara do pai e lançou os dois títulos no mercado. Nasciam aí os quadrinhos de terror e a lendária EC Comics.


A publicação bolada por Gaines e Feldstein, batizada com o apropriado título de Tales From the Crypt, tornou-se um sucesso espetacular entre crianças e adolescentes e motivo de choque para os norte-americanos adultos. Jamais o cidadão comum - classe média, branco, suburbano e fiel defensor do American Way of Life como o caminho mais curto para o Paraíso - iria permitir que seus filhos passassem o tempo lendo histórias sobre aberrações, trapaças, assassinatos, bruxaria, exorcismo e magia-negra. O mundo permitido era aquele idealizado nas pinturas de Norman Rockwell, do garoto loiro de cabelo escovinha, das ceias do Dia de Ação de Graças e das bandeirantes de rosto corado. A América mergulhava no sonho da prosperidade capitalista, numa vida melhor através da química e no seu estabelecimento como superpotência econômica e militar. Encarar o lado feio e bizarro da vida não estava nos planos de ninguém. Exceto da molecada, que, dos cafundós do Arkansas ao centro de Nova Iorque, fazia a fortuna de Gaines comprando qualquer coisa que tivesse o selo EC Comics estampado na capa.


Isso aconteceu porque Bill Gaines criou uma identificação imediata com o público ao se apropriar da linguagem radiofônica - todas as histórias eram apresentadas por um narrador, geralmente o Zelador da Cripta, a Bruxa Velha ou o Guardião da Câmara - e também porque arrebanhou um time de artistas de primeira para atingir, nas páginas da revista, o clima de demência que as histórias pediam. Assim como Will Eisner, os desenhistas Jack Davis, Frank Frazetta, Johnny Craig e Graham "Ghastly" Ingels tinham um traço sombrio e carregado de dramaticidade. Houve também tendência em distorcer certas expressões faciais na tentativa de transpor para o papel a loucura interna de cada personagem. Tales From The Crypt impressionava também por sua logomarca ao mostrar a palavra "Crypt" grafada de tal forma que dava a impressão de estar apodrecendo.


O sucesso da EC Comics nas bancas, levou Gaines a ampliar sua linha de "produtos". Na esteira do sucesso de Tales From The Crypt, foram lançados The Vault Of Horror, Crime SuspenStories, The Haunt of Fear e Shock SuspenStories. Aproveitando a maré boa, Gaines adaptou as histórias do conhecido autor Ray Bradbury e jogou no mercado Weird Science e Weird Fantasy, publicações que misturavam suspense e terror a uma ficção científica um pouco mais pessimista, semelhante a de escritores como Phillip K.Dick e William Gibson. Não contente em se tornar o novo rei dos quadrinhos - desbancado as HQs de super-hérois, que, depois de Tales From The Crypt, entraram em decadência - Gaines aventurou-se pelo campo do humor. Em 1952 chegava às bancas a MAD Magazine, o mais novo empreendimento da EC Comics, editada pelo escritor e desenhista Harvey Kurtzman.


O grande mérito da MAD Magazine trazer para as HQs um humor anárquico, satírico e, principalmente, judeu. Ainda em sua primeira fase - reconhecidamente a melhor de todas - ela destruiu sem dó nem piedade todo e qualquer ícone da cultura de massa norte-americana. Flash Gordon virou Flesh Garden (Jardim de Carne), um brutamontes com zero de QI, e Batman foi transformando em um anão vampiro que vivia tentando agarrar a Mulher Maravilha. São notáveis também as sátiras feitas ao Superman (Superduperman e a charge Supermarket, sobre um supermercado exclusivo para heróis) e as adaptações de contos de fadas, todas elas temperadas por uma certa dosa de perversão sexual. A MAD merece ainda um capítulo à parte sobre sua produção gráfica, pois foi nela que floresceu o talento de Wallace Wood; Basil Wolverton, especialista em desenhar monstros deformados, e Bill Elder, os responsáveis pela "cara" da fase clássica da revista. Para se ter uma ideia de como a coisa era pesada para época, o slogan da MAD era uma provocação absurda: "MAD Magazine: Humor In a Jugular Vein!!", frase que, nos anúncios da revista, aparecia escrita sob uma Monalisa deformada criada por Basil Wolverton.


A festa duraria pouco e, logo, a década de 50 seria conhecida como um dos períodos mais sem-graca da história das HQs. Apesar de algumas coisas maravilhosas, como Pogo, de Walt Kelly, e Ferdinando, as histórias em quadrinhos sofreram um duro golpe com o surgimento do macarthismo, da paranóia anti-comunista e com a publicacao de A Seducao dos Inocentes - livro do psiquiatra Frederic Werthan sobre os "malefícios" das HQs. Entre outras coisas, Dr. Werthan, "provava" que Batman e Robin mantinham um ardoroso caso homossexual:

"Constantemente eles se salvam um ao outro de ataques violentos de um número sem-fim de inimigos. Transmite-se a sensação de que nós, homens, devemos nos manter juntos porque há muitas criaturas malvadas que têm que ser exterminadas...Às vezes, Batman acaba numa cama, ferido, e mostra-se o jovem Robin sentado ao seu lado. Em casa, levam uma vida idílica. São Bruce Wayne e Dick Grayson. Bruce é descrito como um grã-fino e o relacionamento oficial é que Dick é pupilo de Bruce. Vivem em aposentos suntuosos com lindas flores em grandes vasos...Batman é, às vezes, mostrado num robe de chambre...é como um sonho de dois homossexuais vivendo juntos".
Dr. Frederick Werthan - The Seduction of the Inocents


Impelido pela caça às bruxas do senador Joseph MacCarthy - cujo alvo foi, principalmente, atores, roteiristas e diretores de Hollywood acusados de comunismo - e o livro do Dr. Werthan, o governo norte-americano tentou acabar com todo o tipo de publicação cujo conteúdo fosse considerado "imoral" ou "impróprio". A primeira a dançar foi a EC Comics. Todos seus títulos foram proibidos e a MAD passou a pegar menos pesado em suas sátiras e mudou de formato para poder continuar nas bancas. Outro caso célebre foi a perseguição que o criador de Ferdinando, All Capp, sofreu por causa de uma história sobre os schmoos, um bichinho fictício semelhante a uma foca que se proliferava à velocidade da luz e tinha uma carne deliciosa, além de dar leite e pôr ovos. Na história, os Estados Unidos entram em polvorosa porque ninguém mais queria trabalhar, já que todo mundo tinha um schmoo em casa e não passava mais fome. Por isso, o schmoos foram considerados pelo governo como uma apologia ao comunismo e All Capp teve que tirá-los das aventuras de Ferdinando.


O resultado mais triste da paranóia do senador MacCarthy e do chefe do FBI, J Edgar Hoover, foi a criação do Comics Code, aquele selinho encontrado em todas as revistas comercializadas nos EUA. Sem ele, as publicações de quadrinhos não poderiam ser vendidas, o que levou as editoras a implantar a censura interna, acabando assim com a liberdade de criação de seus artistas.


Apesar de algumas coisas legais aqui e ali, as HQs só saíram do marasmo no começo dos anos 60 após o surgimento da literatura beat e das primeiras manifestações da contracultura. Criado em São Francisco, o movimento dos Comix deu um novo impulso criativo aos quadrinhos. Primeiro porque seus integrantes estavam num desbunde total e não estavam nem aí para a rígida moral norte-americana. Segundo porque as revistas dos Comix não eram vendidas em bancas e sim em lojinhas hippies, cujos donos não queriam nem saber se as ditas-cujas tinham ou não o famigerado Comics Code Aproval.


É um período marcado pela negação à linguagem formal das HQs. Nos comix, por muitas vezes não havia uma seqüência lógica na narrativa. Uma historia poderia ser interrompida para dar vazão a algum experimentalismo gráfico ou não ter exatamente um roteiro. Poderiam ainda ser ácidas e demolidoras - como as notórias edições de Air Pirates, de Dan O'Neil e Ted Richards, nas quais Mickey e Minie Mouse apareciam fazendo toda espécie de loucuras sexuais - ou simplesmente desagradáveis, principalmente em alguns momentos mais escatológicos da Zap Comix, a primeira publicação underground do planeta. Entre os nomes do quadrinho underground, destacam-se Robert Crumb, Gilbert Shelton, Robert Williams, Skip Williamson e Ricky Griffin, litografista que fez a cabeça de toda uma geração com sua arte psicodélica e posters de Carlos Santana, The Doors e Gratefull Dead.


Os comix atraíram também uma parcela considerável de artistas da velha guarda. Cansado da censura do Comics Code e empolgado com o movimento, Will Eisner lança um gênero inédito: as novelas gráficas (Um Contrato com Deus e O Edificio), uma mistura de literatura e quadrinhos com uma linguagem mais madura e bem mais experimental do que a usada na HQ tradicional. Outro veterano a pedir uma vaga no porão do quadrinho underground foi Harvey Kurtzman. À margem da indústria desde a instituição do Comics Code, ele voltou à cena com a revista Help, uma versão ainda mais pirada da MAD Magazine. Junto com ele vieram os bons companheiros de EC Comics Bill Elder e Wallace Wood, que, nesse período, deu ao mundo a memorável My World, uma fábula pessoal sobre a decadência moral dos Estados Unidos.


Quadrinhos e pop art - É neste processo de renovação da sociedade norte-americana que a pop art ganha um impulso e, de certa forma, contribui para que os quadrinhos voltem de novo a ser tratados como coisa séria. Os artistas procuravam demolir a rigidez e a seriedade das artes plásticas através de ícones da sociedade ocidental. Garrafas de Coca Cola, latas de sopa, símbolos gráficos usados em estações de metrô eram usados em associações livres que permitiam o estabelecimento de relações simbólicas e afetivas com as obras em questão. Era uma arte que se valia da repetição de signos conhecidos no intuito de buscar uma identificação com o público a que ela se destinava. A idéia era eliminar as barreiras entre as culturas erudita e popular.


Sendo assim, é compreensível que os grandes nomes da pop art utilizassem também as histórias em quadrinhos como um elemento a mais dentro de seus trabalhos. Afinal, a linguagem das HQs, um balão de texto ligado a uma imagem, possibilita a compreensão imediata da mensagem. Além do que, graficamente, eles dispunham de inúmeras referências que serviriam de parâmetro para os pintores pop. Isso pode ser visto na obra de Roy Lichtenstein e seus painéis diretamente copiados de tiras de jornal e, em menor escala, no trabalho de Andy Warhol. Neste caso, mais em decorrência da forma como ele dispunha suas obras - utilizando a narrativa seqüencial em cores primárias nos célebres retratos de Marilyn Monroe, Mao Tsé Tung e James Dean - do que propriamente por se comportar como um quadrinhista tradicional.


Ao levar para as galerias a estética das HQs, a pop arte fez com que os quadrinhos ganhassem de volta o respeito que haviam perdido na década de 50. Claro que isso não seria possível sem a renovação promovida pelos Comix. Com a pop art os quadrinhos passaram a ser aceitos por uma camada mais intelectualizada da sociedade. Jules Feiffer tem suas tiras publicadas nas páginas da elitista New Yorker. Na Europa, François Truffaut, Alain Resnais, Federico Fellini e Umbero Eco, teorizam sobre as HQs e declaram seu amor aos quadrinistas norte-americanos. Com a benção da pop art, finalmente as histórias em quadrinhos viraram coisa de gente grande.


A quebra de valores promovida pela pop art, pela contracultura, pelos comix e pela beat generation influenciou ainda o jornalismo e a literatura. Hunter S. Thompson e Tom Wolfe criam o "new journalism" e inventam uma nova forma de narrativa, misturando a notícia a impressões pessoais e estados alterados de consciência. Se, por um lado, Thompson experimentou todos os tipos de substâncias legais e ilegais para escrever Fear & Loathing in Las Vegas, um relato de suas maluquices na capital mundial do jogo, Wolfe desenvolveu uma linguagem acelerada e dinâmica parecida com as narrativas das HQs. Inclusive com a utilização de onomatopéias:


"mesmo que alguém quebrasse a corrente e em que todos fluíam e fosse bater de encontro ao asfalto da Grande Estrada a noventa quilômetros por hora - eles possuiam isso gravado na fita - e podiam tocar muitas vezes em retardos variáveis, skakkkkkkkkkkk-akkkkkkkk-akkkkk-akkkkkeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee - Nua em Pêlo cada vez mais esquisita enrolada na manta preta, tremendo e depois se levantando feito uma alma penada...
...É loucura, delírio, piração, fora da realidade, com metade do mesencéfalo repetindo
VOCÊ ESTÁ MUITO DOIDO
e a outra metade repetindo
VOCÊ É DEUS ...
Homem home on the range, cuspindo e buzinando fonfonrofonfon aquela maldita ladainha ao microfone - Home...home...on the ra-a-a-a-a-ange..."


Tom Wolfe - O Teste do Ácido do Refresco Elétrico


Essa foi a estética vigente dos primeiros textos da literatura underground norte-americana. Em livros como V, O Leilão do Lote 49 e Arco Íris da Gravidade, todos publicados no período que vai de 61 a 73, o escritor Thomas Pynchon freqüentemente adota um modelo de narrativa semelhante ao das histórias em quadrinhos e nos diverte com aviões sendo abatidos por uma rajada de tortas de creme, sátiras ao quadrinho de herói (o personagem Homem Foguete é claramente inspirado no Capitão América), monstros imensos que surgem do nada, ratos falantes, uma rolha assassina que persegue um casal em pleno ato sexual e personagens como nomes improváveis e absurdos (Benny Profane, Oedipa e Mucho Maas, Pierce Inverarity, Fausto Magistral, Tyrone Slothrop, General Pudding, Pig Bodine...). Quem também se utiliza do humor quase infantil das HQs é Kurt Vonnegut em seu manifesto anti-militarista Matadouro 5 e no experimental Timequake. Foi essa reciclagem da cultura de massa norte-americana e a sua junção com os valores emergentes da contracultura que permitiu o surgimento de uma narrativa genuinamente pós-moderna, um gênero que, além de bastante divertido, deixou fortes marcas na literatura norte-americana. Dos anos 60 até os dias de hoje.
A contraforça literária
Por Vladimir Cunha
yoyodine@hotmail.com

Injustamente esquecido, relegado a um canto escuro do quarto de despejos da contracultura, Arco Íris da Gravidade, do escritor norte-americano Thomas Pynchon, permanece como a obra mais obscura e controversa da literatura mundial. Sua história tem início na Inglaterra durante o final Segunda Guerra Mundial. É lá que ficamos conhecendo Tyrone Slothrop, um tenente do exército norte-americano com a estranha compulsão de fazer sexo nos lugares onde irão cair as bombas V2 lançadas pelos alemães. Sem razão aparente, Slothrop consegue prever quais locais serão bombardeados. E sua busca pela explicação para esta suposta mediunidade é o fio condutor da história.


Mas a força do romance de Thomas Pynchon reside mesmo em sua complexidade temática e estrutural. Ao longo de quase 900 páginas, ele discorre, entre outras coisas, sobre o militarismo excessivo e o perigo nuclear (é preciso lembrar que o livro foi escrito nos anos 60, no auge da Guerra Fria), a excessiva presença da tecnologia na mediação das relações humanas, a possibilidade de manipulação dos sistemas de percepção sensorial, o sexo enquanto forma de dominação na sociedade moderna, a expansão da mente através das drogas, a Entropia e a morte do Universo, o colonialismo europeu e a existência de um Estado mundial invisível controlando nossas vidas. Tudo isso costurado por peripécias tão engraçadas quanto improváveis e imensos tratados sobre física, psiquiatria, química e História.


Propositalmente, Pynchon criou um narrador de voz pouco confiável, que se perde em devaneios e digressões à medida que o romance avança para o final. Em Arco Íris da Gravidade é impossível afirmar o que é alucinação, o que é mentira e o que é, de fato, realidade. Personagens mudam de nome sem que o leitor seja avisado, situações são descritas nos mínimos detalhes apenas para descobrirmos depois que elas nunca aconteceram e o caminho que parece mais óbvio nunca é aquele que conduz a um perfeito entendimento da trama. É um jogo onde o autor abusa de mensagens cifradas, significações ocultas e trajetórias labirínticas, que levam o leitor a se perder no emaranhado de situações que surgem ao longo da história.


Adepto da teoria do caos e do conceito de Entropia, Pynchon optou por deixar o livro aparentemente sem final. Gotfried aprisionado no Foguete 00000 e sua relação carnal e subserviente com o Tenente Blicero são o sexo como forma de opressão, abrigado sob a sombra da Tecnologia e da indústria cultural, o prazer que nasce do corpo subjugado, destruído simbolicamente em nome do entretenimento. Os eventos finais encenados por ele são como uma cadeia de fractais, na qual os acontecimentos prolongam-se de um determinado ponto até o infinito.


Arco Íris da Gravidade guarda ainda semelhanças com as Zonas Autônomas Temporárias criadas pelo anarquista Hakim Bey. Enquanto reconstitui seu passado, Slothrop mergulha na Zona, um imenso inconsciente coletivo físico e metafórico encravado no coração da Europa. A Zona guarda a resposta para o enigma de Slothrop ao mesmo tempo em que lhe confronta com simbolismos arcanos, perversões sexuais e ultraviolência. Ocorre então uma breve suspensão das Leis e dos costumes, a quebra momentânea das barreiras do Ego. Slothrop - confinado à Zona, entorpecido por toda sorte de drogas, incapaz de reagrupar os mecanismos constituintes de sua identidade (uma espécie de largura de banda psicológica) e atraído pelo misterioso Foguete 00000 -cede ante a fragmentação sensorial. Ele agora é apenas uma aparição, um impulso psíquico que se desfaz em meio ao caos da Zona. Ao contrário de Gotfried – e de certo modo, de todos os personagens do livro – a opção de Slothrop em excluir-se da Matrix resulta num lento, mas progressivo, processo de esquecimento. Ou, numa interpretação mais otimista, na liberdade total a partir de uma vida longe das regras sociais.


Há quem goste de Arco Íris da Gravidade por seu humor picaresco, há quem veja na obra um tratado sociológico sobre o século XX, há quem admire a erudição de Pynchon há quem enxergue mensagens ocultas no estilo hermético do autor e há quem aprecie o livro por todos esses fatores. Ao subverter classificações e misturar estilos literários diversos com informações acadêmicas e um senso de humor meio bizarro, Thomas Pynchon ultrapassou as fronteiras da literatura pós-moderna e estabeleceu um novo parâmetro estético, várias vezes copiado mas jamais igualado. Talvez seu livro tenha sido a última obra-prima da literatura mundial e o último Grande Romance Americano. Você já deve ter ouvido isso antes, mas nada que se compare a esta vez.

O Homem que Caiu na Terra
Entrevista com Alejandro Jodorowsky
Por Vladimir Cunha
yoyodine@hotmail.com


Para quem não sabe, Alejandro Jodorowsky é um dos artistas mais criativos dos quadrinhos e do cinema francês. Nascido no Chile em 1929, ele emigrou para a França no começo da década de 60 atraído pela escola de teatro do famoso mímico Marcel Marceau, de quem foi aluno durante algum tempo. No entanto, sua carreira só foi deslanchar de verdade no começo dos anos 70, quando lançou o cult-movie El Topo, sucesso underground que até hoje é exibido em cinematecas ao redor do mundo. Em seguida, iniciou uma bem sucedida carreira de argumentista onde criou, ao lado de Moebius, a fantástica série Incal e o quadrinho-poema Os Olhos do Gato.


Atualmente, Jodorowsky vive mais um momento de glória com o best-seller Metabarão, um álbum de quadrinhos que conta a história de um dos personagens mais conhecidos do Incal, e com o relançamento em DVD de El Topo, Fando y Lis, The Holy Mountain e Santa Sangre, seus filmes mais importantes.


A obra de Jodorowsky é caracterizada por um profundo misticismo e por tramas subjetivas e complexas. Devido a essa ousadia temática e conceitual, muitas vezes ele teve que lidar com o fracasso. É o caso de sua adaptação do livro Duna, de Frank Herbert. Com um roteiro que pouco ou nada tinha a ver com o original - e que, além da fantástica direção de arte de Moebius, contava com o tresloucado Salvador Dali em um dos papéis principais - ela foi boicotada pelos exibidores norte-americanos e nunca saiu do papel.


A primeira vez que eu tive contato com sua obra foi quando ganhei do meu pai um livro da série O Incal. Ao terminar a leitura, fiquei bastante impressionado com a complexidade do roteiro. Você acha que existe espaço para esse tipo de coisa num mundo tão superficial quanto o dos quadrinhos?
Acho que sim. Tanto que, quando comecei minha carreira esse era exatamente meu objetivo: usar os quadrinhos para discutir coisas mais sérias e profundas. Eu domino vários tipos diferentes de arte. Em cada uma delas eu procuro atingir um nível mais elevado de consciência.


Mas será que os quadrinhos podem ser usados para algo mais do que apenas divertir as pessoas?
Claro! Quadrinhos são uma forma de Arte. Qualquer arte oferece infinitas maneiras de se expressar. Não existem artes idiotas e sim artistas idiotas.


Quais são os seu autores de quadrinhos favoritos?
Harold Foster, que criou O Príncipe Valente, e Will Eisner, de The Spirit. Atualmente tenho lido muito os trabalhos de Robert Crumb, principalmente os quadrinhos do Mr.Natural.


Os quadrinhos passam por uma crise financeira muito séria nos dias de hoje. Voce acha que hoje em dia existe espaço para coisas mais experimentais que artistas como você e Moebius fizeram no passado, como, por exemplo, Os Olhos do Gato, um quadrinho que foge dos padrões mais convencionais?
Meu amigo, as pessoas do continente americano (tanto do norte quanto do sul) tem essa idéia de que o mundo se resume aos Estados Unidos. Na França não existe crise alguma nos quadrinhos. A minha série sobre os Metabarões é a quarta colocada no ranking das 50 publicações mais vendidas do país. Ela ja vendeu mais de 400.000 cópias somente este ano! E olha que cada cópia custa cerca de 15 dólares. Crise? Que crise? Este ano dois álbuns meus serão lançados nos Estados Unidos: Metabaron e Technopriests. Estou esperando para ver no que vai dar...


Aqui no Brasil as pessoas conhecem apenas o Jodorowsky quadrinhista e não o Jodorowsky cineasta. Fale um pouco mais sobre sua carreira na sétima arte.
Eu comecei durante os anos 70 e fiz quatro filmes que considero importantes. Todos eles são considerados cult movies, o que garante que eles continuem sendo exibidos até hoje nos cinemas de todo o mundo. Atualmente eu trabalho com um pouco mais de calma e não sinto aquela urgência de produzir tanto quanto antigamente.Fando y Lis, El Topo, The Holy Mountain e Santa Sangre (N.E: infelizmente todos inéditos no Brasil) são os meus trabalhos preferidos. Atualmente estão disponíveis para venda em VHS ou DVD.


Já que estamos falando sobre isso, o que aconteceu com sua adaptação cinematográfica de Duna?
A produtora era francesa e os custos de realização do filme eram altos demais para os nossos padrões. A única maneira de viabilizá-lo era conseguir nos Estados Unidos no mínimo dois mil teatros que se dispusessem a exibí-lo. O problema foi que as companhias de exibição se recusaram a fechar um acordo com a gente quando perceberam que era mais fácil fazer dinheiro roubando minhas idéias para o filme...não sei se você sabe mais foi assim que Alien e Guerra nas Estrelas começaram . Todos eles foram baseados em conceitos criados por mim para Duna.


De onde vem inspiração para compor uma obra tão complexa e cheia de significados?
Ela vem direto do meu subconsciente e também do contato com todo o tipo de informação que chega até mim: quadrinhos japoneses, filmes de terror, séries de TV, filmes de faroeste, quadrinhos, fotonovelas, Tarot, psicoanálise, pornografia, vídeo de heavy-metal, lutas de boxe, competições de luta-livre, corridas de touros, arte trash, misticismo oriental e de tudo o mais que eu observo no dia-a-dia quando estou tomando meu chá matinal em meu café predileto...


E quais os seus planos para o futuro?
Atualmente estou com 70 anos e continuo escrevendo como nunca. Se a minha mente e o meu corpo colaborarem comigo, pretendo continuar vivendo e trabalhando pelo menos até os 120 anos. Quem sabe, um dia, eu não estarei sendo entrevistado por seus netos e netas?

MOVIMENTO PELA EXTINÇÃO HUMANA VOLUNTÁRIA
Por Vladimir Cunha
yoyodine@hotmail.com


Sabe aquela história de que a Terra é um lugar bacana só que mal freqüentado? Pois é, para algumas pessoas isso é mais do que uma piada velha. Segundo Les U Knight - fundador, líder e mentor teórico da ONG Voluntary Human Extinction Movement (Movimento pela Extinção Humana Voluntária, em português) - nosso planeta está à beira do fim e a única maneira de salvá-lo é extinguindo a raça humana. Depois de poluir o ar, envenenar rios, abrir buracos na camada de ozônio, condenar populações inteiras à fome e à pobreza, o mínimo que a Humanidade poderia fazer era ter a decência de abandonar o barco e deixar este pedaço de rocha flutuante para a sua verdadeira dona: a Mãe Natureza. É o radicalismo ecológico levado às últimas conseqüências.


Você acha realmente que a vida animal e os vegetais são tão importantes ao ponto de justificar a extinção da raça humana?
Num ecossistema equilibrado todas as espécies são importantes e nenhuma é melhor que a outra. De uma forma geral, quanto mais alta a posição que uma espécie ocupa na cadeia alimentar menos ela importante ela é para aquele sistema. O homem já não faz mais parte da cadeia alimentar. Por outro lado, as bactérias presentes nos intestinos dos seres vivos são importantíssimas para a sobrevivência de toda a biosfera terrestre. Se levarmos isso em conta, chegaremos à conclusão que o homem vale menos do que uma bactéria.


Então a raça humana não tem valor algum?
Nós só temos valor para as pessoas com quem nos relacionamos. Mas, para a natureza e o ecossistema, nós não fazemos a menor falta.


Nem se levarmos em conta o legado cultural e intelectual da humanidade?
Talvez as traças achem nossos livros um tanto quanto deliciosos, mas eu creio que elas não vão saber diferenciar o Pablo Neruda das Seleções do Reader's Digest. Pegue a maior criação literária já feita pelo homem e compare com qualquer forma de vida, mesmo a mais insignificante, e me diga: qual delas possui mais beleza, complexidade e potencial?


Quantas pessoas fazem parte do seu movimento?
Seis bilhões e 50 milhões, eu creio. Na verdade eu falo isso porque é impossível dizer quantas pessoas já devem ter chegado a conclusão de que o mundo seria melhor sem a raça humana. Mas, baseado na quantidade de pessoas que entram em contato comigo, posso dizer que temos por volta de uns três milhões de pessoas engajadas em nosso movimento. São pessoas que, embora não sejam membros de nossa organização e não tenham uma militância, apóiam nossas idéias e gostariam de ver nossos objetivos alcançados.


E como vocês fazem para divulgar as idéias do movimento? Vocês tem algum tipo de publicação ou é tudo feito através da internet?
Nós não funcionamos como uma organização normal. Não recebemos doações, não fazemos reuniões com os nossos membros e nem temos interesse nisso. Na verdade, toda a divulgação das nossas idéias é feita apenas em nosso site na internet. Nossos textos estão à disposição de quem quiser imprimí-los e distribuí-los por aí.


Qual a situação do Movimento hoje em dia? Ele tem crescido?
Sim, um bocado. Principalmente nos Estados Unidos, que é o país onde somos mais atuantes.


A oposição ao movimento de vocês é muito grande ao ponto de chegar a reações mais extremas, como a violência contra membros da organização, por exemplo?
Não. Existem aqueles que não concordam com a gente mas não aconteceu até agora de sermos alvo de atos violentos. Não consideram os nossos opositores como inimigos. Os verdadeiros inimigos da humanidade são a ganância e o ódio e estes podem ser combatidos com generosidade e amor ao próximo.


A Extinção Voluntária existe em outros países?
Sim, nós temos nossos textos traduzidos para o italiano e estamos providenciando versões para o nosso sites em alemão, holandês, português, chinês e francês. Ainda assim é difícil dizer com precisão todos os lugares onde nós estamos, pois a Extinção Voluntária é uma idéia que se espalha pelo mundo como um vírus de computador.


Algumas pessoas tendem a achar que o seu movimento é contra as crianças e não contra a presença humana na terra. O que você acha disso?
Isso e um mal-entendido. Ser contra as crianças é manter uma sociedade onde 40 mil delas morrem todos os dias vítimas de doenças facilmente curáveis. Além do mais, que tipo de mundo espera nossas crianças? O futuro não é mais o que costumava ser. Condenar alguém a viver neste mundo é como vender passagens para um navio que está afundando.


O que você acha de organizações como a Igreja da Eutanásia e gente como Peti Linkola, que defendem que a humanidade deve ser extinta a qualquer custo, mesmo que, para isso, sejam necessários meios violentos?
São abordagens diferentes para o mesmo assunto que ajudam a chamar a atenção das pessoas para a nossa causa.


Mas será que a violência é a melhor solução para os nosso problemas ecológicos?
Não existe violência maior do que as agressões que o homem faz à natureza. Destruir o ecossistema, matar animais apenas por esporte e prazer, criar seres vivos em cativeiro em condições de absoluta crueldade, promover a extinção de espécies inteiras...isso sim é que é violência. Quanto à questão da militância que apela para o extremismo, não creio que ela resolva muita coisa. Brigar e bater nas pessoas não é a melhor maneira de fazê-las pensar diferente.


Será que não existe outra solução além da extinção da raça humana? Nós temos vários exemplos de organizações, como o Greenpeace, que lutam por um mundo ecologicamente equilibrado. Não seria essa uma saída?
Todos os esforços são válidos. Não basta apenas parar de procriar para salvar o planeta. Se nós não cuidarmos do planeta enquanto estamos aqui, não vai sobrar muita coisa quando a raça humana estiver extinta de uma vez por todas. Sendo assim, nosso esforço terá sido em vão. No entanto, se não houver um trabalho de conscientização com relação à necessidade de diminuir gradativamente a população do planeta, todos esses esforços não irão adiantar de nada.


Se um dia a raça humana deixar de existir, o que realmente vai acontecer?
Quando nós desaparecermos, as plantas e os animais se encarregarão de restaurar o equilíbrio do ecossistema. Nossas cidades irão sumir aos poucos até se tornarem apenas traços de uma civilização que um dia habitou este planeta. Nosso lixo tóxico continuará a envenenar a Terra por mais algumas dezenas de milhares de anos mas, pelo menos, nós não estaremos aqui para poluir o planeta ainda mais. Creio que serão preciso milhões de anos para que a biosfera se recupere dos estragos feitos por esta raça de macacos em apenas 50 mil anos de existência. Para entender melhor, basta você imaginar o processo de retorno à Natureza que as cidades Maias e Astecas estão sofrendo.


Segundo alguns físicos teóricos, existe a possibilidade de que um dia o nosso sol aumente de tamanho até destruir nosso planeta e o próprio Universo está condenado a morrer em um futuro remoto. Além disso, os dinossauros foram extintos e nós ainda tivemos as Eras Glaciais. Você não acha que a própria Natureza tem seus métodos de manter o equilíbrio das coisas?
Com toda certeza. O problema é que, devido ao seu poder tecnológico, o homem conseguiu evitar a morte natural que todas as espécies experimentam após um certo tempo de existência. Mas isso só vai contribuir para que a nossa extinção seja ainda mais dolorosa quando chegar nossa hora. Nós podemos evitar isso. Ou pelo menos evitar sentenciar alguém à vida apenas para que esta pessoa tenha que morrer depois.
Algumas pessoas pensam que não temos que nos preocupar e que a Natureza se encarregará de restaurar o equilíbrio do ecossistema. Isso é como achar que um carro não precisa de freios só porque ele vai deixar de andar quando der de encontro a um muro. Nós temos o freio e temos inteligência suficiente para usá-lo. Sendo assim, porque não fazer isso?
A extinção humana e a melhor saída para a Humanidade. A partir do momento que pararmos de procriar as brigas por territórios e recursos naturais irão cessar. Poderemos, inclusive, experimentar uma período de saúde, felicidade e abundância de recursos a partir do momento em que formos desaparecendo da face da Terra. É a sociedade utópica que a qual temos sonhado desde que o homem passou a dominar este planeta.


Rock de verdade na terra do mangue
Por Vladimir Cunha
yoyodine@hotmail.com


De um lado, quatro drag-queens suspeitíssimas soltando a voz em um punk rock capaz de fazer Joey Ramone levantar da tumba. De outro, cinco mil pessoas boquiabertas ao descobrir que a proposta artística das "meninas" transcendia os três acordes que caracterizam o estilo. Chupeta, Pixota, Cilene Lapadinha e Lollypop. Assim se chamavam as foras-da-lei que deixaram em estado de choque a platéia de seu histórico show na edição 2001 do festival Abril Pro Rock.


Quando não estavam enfiando o microfone lá onde o sol não brilha, o quarteto simulava cenas de masturbação e felação, mostrava o traseiro para a platéia ou fazia barbaridades com uma boneca chuquinha. Esta, é bom que se diga, devidamente aparelhada com um enorme pênis de borracha implantado em sua virilha. Uma espécie de Rock Horror Picture Show subdesenvolvido traduzido na fórmula rock básico + mundo cão = diversão garantida para as massas.


É assim que funcionam as coisas se o assunto é a banda Textículos de Mary. Formada em Recife há dois anos, ela é uma resposta bem-humorada à ditadura musical do movimento mangue-bit. Os Textículos de Mary não usam percussão, não têm a menor intimidade com o maracatu e preferem cuidar da maquiagem a improvisar um repente. Você jamais vai ver um vocalista da banda falando da importância da embolada para a MPB ou fincando a parabólica na lama. O mundo dos Textículos é outro. É o mundo dos michês, dos travestis que perambulam pelas esquinas do Recife Antigo, das revistas vagabundas de terror e dos filmes pornôs da Boca do Lixo. Saem Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga e entram Madame Satã, Jean Gennet, Plínio Marcos e Zé do Caixão.


Quem explica melhor é o vocalista Chupeta, um simpático estudante de História que, fora do palco, atende pelo nome de Fábio. "Quando começamos tudo aqui era fusão. A gente sentia que o rock estava perdendo espaço e por isso montamos a banda, para fazer punk tradicional. Já o escracho nasceu da nossa vontade em mostrar para as pessoas aquilo que a sociedade prefere esconder. Somos os excluídos. Ninguém gosta de ver michê, prostituta e travesti. É por isso que criamos a história dos Textículos de Mary, super-heróis nascidos de uma mutação que habitam uma realidade paralela. Eles são os salvadores dos marginalizados, surgem quando alguém precisa de ajuda", resume ele.


Certo. Mas não vá pensando que o grupo é cultuado pelos pernambucanos GLS. No Recife, quem menos prestigia os Textículos de Mary são os gays, que parecem levar as loucuras da banda a serio demais. "Os homossexuais se ofendem com a gente. Não chegou a ter um protesto oficial do movimento. No entanto, alguns gays, que não gostam de rock, se sentiram agredidos. Nas boates rolou das pessoas simplesmente nos ignorarem. Nosso público é formado basicamente pela molecada e pelos skatistas. O que eu acho engraçado é que as bichas não gostam mas os michês delas nos adoram. Deve ser por causa do som agressivo, que mexe com eles", diz Chupeta destilando um certo veneno.


Os Textículos de Mary são contraditórios pela própria natureza. Surgiram em Pernambuco mas renegam o mangue-bit - "não falo da religião dos outros", disse o vocalista quando perguntei o que ele achava do movimento - e são gays que não encontram respaldo em sua própria comunidade. Caso não tome cuidado, a banda pode sumir do mapa quando o circo de horrores pop que é sua marca registrada deixar de ser novidade. Principalmente, se continuar a depender apenas da cena rock de Recife.


Não seria, então, a hora de buscar novos rumos?


Chupeta acredita que sim. Por ele, os Textículos de Mary já estariam em turnê há muito tempo. Só que a grana anda curta. A falta de dinheiro é tanta, que o grupo não conseguiu sequer pôr um site no ar. CD-demo, nem pensar, os Textículos ainda estão na fita cassete. Em formato digital, apenas disputadíssimos dez disquinhos com seu primeiro registro em estúdio. "Fazer um show nosso é caro", desabafa o vocalista, "Rola maquiagem, som, cenário. Somos multimídia, temos até uma história em quadrinhos que queremos lançar. Eu fico agoniado porque todo mundo pergunta de site, de video, de CD. O problema é que somos uma banda auto-produzida e, às vezes, não temos dinheiro para bancar tudo de uma vez. Ninguém nos Textículos vive de música. Eu faço estágio em arqueologia e estou terminando o curso de História. A Lollypop e a Cilene Lapadinha trabalham como garçons. A Pixota estuda Biologia. De profissional mesmo só os músicos que nos acompanham. A gente ainda nao ganhou nada de grana com a banda, só perdeu".


Desvendados os mistérios dos Textículos de Mary, é hora de saciar a curiosidade dos fãs e perguntar o que aconteceu com eles no Abril Pro Rock 2001. Já no finalzinho do show, a banda teve seus PAs desligados enquanto tocava. O que os Texticulos perderam em som, ganharam em moral. Saíram aplaudidos pelo público e viraram os (anti)heróis do festival.


O vocalista entrega o jogo sem nenhum constrangimento: "A verdade é que passamos do tempo. Como a passagem de som atrasou, eles pediram que cada banda reduzisse sua apresentação em cinco minutos para não atrapalhar o show do Jon Spencer. Aí a gente se desligou. Acabamos tocando mais do que o combinado e a produção desligou nosso som justo em She-Ra, a última música. Não cortamos de propósito. Isso fui eu quem espalhou porque queria fazer uma onda em cima do fato. Chamamos a maior atenção. Foi até legal. Sabe como é, a gente tem que aproveitar essas coisas".


Com tanto talento para o marketing, os Textículos vão longe. Salve-se quem puder.
Textículos de Mary
22/04/2001 - Centro de Convenções, Recife - PE

Por Vladimir Cunha
yoyodine@hotmail.com


Os verdadeiros queers


Eles são os Secos & Molhados do inferno, as drag queens que ninguém teria coragem de chamar para animar uma festa. Eles são os Textículos de Mary. Acredite, você ainda vai ouvir falar muito desta banda.


É fácil descobrir por quê. Em que outro show seria possível ver um vocalista de calcinha de renda e meia-calça fazendo coisas impublicáveis com um microfone? Em que outro show a banda contrataria um travesti apenas para tocar pandeiro e dar gritos histéricos? Em que outro show você vai ver um baterista que é praticamente um sósia da Tia Anastácia? E mais: só pelo fato de terem aproveitado o Abril Pro Rock para demolir um ícone de toda uma geração de meninas - ao amarrar um pênis de borracha em uma boneca chuquinha, que depois receberia uma senhora felação do vocalista de apoio - os Textículos de Mary já mereciam ter seu lugar garantido nos anais (opa!) do rock brasileiro. Com eles, o termo "bicha louca" ganha uma dimensão jamais imaginada.


E tem o som, que é muito bom. Da música de abertura, Marylin Manson Is Dead, até A Vingança de Geysa Kelly (essa com toda pinta de que vai virar um clássico), os Textículos de Mary provaram ser bem mais do que uma banda "engraçadinha". Pelo contrário: os músicos são ótimos, competentes e seguram bem o punk/brega/hardcore que é a maior característica do grupo.


Agora, bem que eles poderiam ter terminado de tocar a última música do setlist. Sem maiores explicações, o som da banda foi cortado na metade de She-Ra - aquela do "Por Greyskull, She-Ra...", que aqui teve a letra mudada para "Porque eu sou bicha..." - deixando o público indignado e pedindo por mais Textículos (afe Maria!). Há quem diga que foi sacanagem da produção do Abril Pro Rock. Já uma fonte ligada à banda falou que o som foi desligado de propósito apenas "para criar hype". Boato ou não, é mais uma ótima polêmica para o currículo das "meninas".

# O texto Os Verdadeiros Queers foi publicado em 23/04/2001 no Abril Pro Rock Zine